"O caos é apenas uma ordem esperando para ser decifrada.”
José Saramago
PT | No início dos anos 2000, surgiu um conceito de planejamento urbano em algumas cidades da Europa chamado de Shared Spaces, os espaços compartilhados. E, representava fundamentalmente a remoção de qualquer dispositivo de controle de trânsito, como, por exemplo, calçadas, faróis ou qualquer sinalização. Nestas cidades, pedestres, ciclistas, carros e caminhões eram livres para negociar sua navegação no espaço público – um verdadeiro caos. Porém, ao contrário do que muitos imaginavam, o que aconteceu foi a melhoria do fluxo, a redução de acidentes e o aumento da cordialidade. Paradoxalmente, a própria percepção de insegurança e necessidade de negociar cada passagem, fazia com que as pessoas ficassem mais alertas e cordiais, e isso reduzia os acidentes.
O pensamento mecanicista-cartesiano, que foi muito útil para nos especializarmos e ganhar escala, também nos afastou desse tipo de inteligência caótica. O poder parece ter saído das pessoas e foi para os processos. Tratamos seres humanos como se fossem robôs. Há muito líderes que resumem toda complexidade de um sistema organizacional a papeis e responsabilidades. Para eles, se todos obedecermos ao algoritmo de quem faz>o quê>quando tudo se resolve. Porém, a realidade é sempre mais complexa e caótica, pois, quando o filho está doente, ou quando batemos o carro, todo esse algoritmo e ordem de prioridades vai para o espaço. A teoria do caos nos ensina que as pequenas coisas importam. Que coisas aparentemente insignificantes acabam assumindo um grande papel a medida que o tempo passa. Que complexidade pode surgir da simplicidade da mesma forma que simplicidade pode gerar complexidade. Também nos ensina que a realidade não é tão binária como estamos acostumados a pensar – mente e corpo, teoria e prática, vida e morte, vencedor e perdedor. Caos nos ensina que tudo está em fluxo. Talvez devêssemos ter menos medo do caos. E, ficar mais confortável com ele, para perceber a diferença que vai fazer a diferença. Caos e ordem representam uma linda dança universal capaz de criar novidade. Para evoluir nossos sistemas precisaremos dos paradoxos, das divergências e das convergências que só o caos pode trazer. O quê você tem aprendido com as situações caóticas? Quais paradoxos você está cultivando?
“Chaos is order yet undeciphered”
EN | In the early 2000s, a concept of urban planning emerged in some cities in Europe called Shared Spaces. It fundamentally represented the removal of any traffic control devices, such as sidewalks, traffic lights, or any signage. In these cities, pedestrians, cyclists, cars, and trucks were free to negotiate their navigation in public space – a real chaos. However, contrary to what many imagined, what happened was an improvement in traffic flow, a reduction in accidents, and an increase in cordiality. Paradoxically, the very perception of insecurity and the need to negotiate each passage made people more alert and cordial, and this reduced accidents. The mechanistic-Cartesian thinking, which was very useful for us to specialize and scale up, also distanced us from this kind of chaotic intelligence. Power seems to have shifted from people to processes. We treat human beings as if they were robots. There are many leaders who summarize the entire complexity of an organizational system to roles and responsibilities. For them, if we all obey the algorithm of who does>what>when, everything will be resolved. However, the reality is always more chaotic, because when a child is sick, or when we crash the car, all that algorithm goes out the window. Chaos theory teaches us that the little things matter. That seemingly insignificant things can take on a great role as time goes by. That complexity can arise from simplicity just as simplicity can generate complexity. It also teaches us that reality is not as binary as we are used to thinking – mind and body, theory and practice, life and death, winner and loser. Chaos teaches us that everything is in flux. Perhaps we should be less afraid of chaos. And, be more comfortable with it, to realize the difference that will make a difference. Chaos and order represent a beautiful universal dance capable of creating novelty. To evolve we will need the paradoxes and the divergences and convergences that only chaos can bring. How much have you learned from chaotic situations? What paradoxes are you cultivating?